Dieta dos pontos Leia, use, aprenda a comer de tudo e emagreça de vez (com muito prazer!)
É muito comum a gente ver pessoas que, depois de alguns anos de se descobrirem infectadas pelo HIV, acabam levando uma vida mais equilibrada e, por que não dizer?, mais feliz”, diz o médico Esper Kallás, pesquisador de novas vacinas para o vírus da aids na Universidade de São Paulo. A frase, apesar de gerar polêmica, é reafirmada por outro grande especialista, o infectologista Caio Rosenthal, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo: “Quando o portador flagra o vírus precocemente, ele investe em qualidade de vida e, não raro, passa a ter até mais saúde do que antes”.
Em 1983, ano em que SAÚDE! chegava às bancas, o vírus em questão acabava de ser flagrado pela dupla de franceses Luc Montaigner e Barré-Sinoussi no Instituto Pasteur, em Paris. Pela descoberta, os dois levaram o Prêmio Nobel deste ano. Mas, na época, ainda reinava a ignorância em relação à doença. O roqueiro Cazuza descobriu que estava com o vírus em 1987. Em sua primeira internação, as recomendações médicas eram: “Não comer no mesmo prato de outra pessoa, não usar as mesmas roupas, não beijar”. Cazuza morreu três anos depois, deixando sua imagem estampada como a cara de uma doença tão assustadora quanto misteriosa. Rosenthal lembra desses tempos: “A gente tratava a pneumonia ou a meningite, mas com pouquíssimo êxito. Logo vinha outra doença e o paciente ia embora”.
A aids ainda assusta e merece assustar. Mas não é misteriosa e sua face mudou. Veja o caso do craque do basquete americano Magic Johnson, que anunciou estar infectado em 1991. O ex-jogador controla o vírus com remédios e exercícios rigorosos. Johnson ainda ganhou o ouro nas Olimpíadas de Barcelona em 1992 e retornou às quadras em 1996, um ano decisivo para os portadores do HIV, quando os cientistas comemoravam os resultados de tratamentos utilizando três anti-retrovirais simultaneamente. Aquele ano, pode-se dizer, foi um divisor na história da aids — antes e depois do coquetel. Graças ao tal coquetel e principalmente ao estilo de vida extremamente saudável, Magic Johnson não parou mais: dirige um grupo empresarial que vale mais de 700 milhões de dólares.
A rotina de um soropositivo nos dias atuais é relativamente simples. Basta de um a três comprimidos duas vezes ao dia e um exame de sangue em intervalos de três a seis meses para controlar o estado de suas defesas — lembrando que o sistema imunológico é o alvo do HIV. Esses comprimidos de anti-retrovirais, combinados, dificultam a replicação do vírus e permitem que as defesas mantenham ou recuperem a capacidade de reagir às infecções oportunistas.
Com isso, a aids virou uma doença crônica, que exige cuidados básicos, como atividade física e uma dieta rígida — aliás, medidas imprescindíveis para driblar dois efeitos colaterais do coquetel. Um desses efeitos é a lipodistrofia, uma alteração na forma do corpo que faz a barriga e as mamas aumentarem, enquanto há o afinamento de braços, pernas e nádegas. Outro é a elevação das taxas de colesterol e triglicérides. “Pacientes que fazem musculação regularmente praticamente não têm lipodistrofia, mesmo quando estão se tratando há mais de dez anos”, afirma o infectologista José Valdez Ramalho Madruga, do Centro de Referência e Treinamento em DST/ AIDS do estado de São Paulo.
Tudo isso, porém, não é nada comparado ao martírio que reinou até a década passada. Eram mais de 15 comprimidos diários com uma enxurrada de efeitos colaterais. Em 1996, o compositor Renato Russo contava: “É como se tivesse comendo um cachorro vivo. E o cachorro me come por dentro”. Russo morreu vítima da aids. Hoje o número de comprimidos caiu barbaramente e o tempo de sobrevida esticou.
CORRIDA CONTRA O MAL
Claro, nem tudo é otimismo. Altamente mutante, o HIV ainda dá um baile nos cientistas, que tentam, em vão, exterminá-lo — ou ao menos impedir a contaminação. O último grande estudo nessa linha teve de ser interrompido porque o grupo de mulheres que usava um gel para eliminar o vírus no contato sexual apresentou um risco ainda maior de infecção. No ano passado, outra grande decepção: o fracasso de uma pesquisa mundial para o desenvolvimento de uma vacina. O médico Esper Kallás, que coordenou a investigação no Brasil, diz que as expectativas eram reduzir o número de pessoas infectadas e, caso a infecção ocorresse, que a carga viral fosse menor em relação ao grupo que não havia tomado a vacina. É triste informar: nada disso aconteceu.
A cura da aids permanece distante. E, apesar das melhorias na qualidade de vida, o preconceito ainda persiste. O escritor Samir Thomaz, hoje com 45 anos, descobriu estar com o vírus há dez. Recentemente, cinco dentistas se recusaram a atendê-lo. Ainda assim, ele não se deixa abater: “Hoje eu vivo muito mais intensamente. Nesse período, fiz uma graduação, escrevi quatro livros e namoro uma menina de 19 anos”. O relacionamento é o tema de seu próximo livro: Te Espero o Tempo que For — Relato de um Amor Proibido.
FAÇA O TESTE
No Brasil, estima-se em 600 mil o número de soropositivos, porém apenas metade dessa gente sabe que carrega o vírus. “O maior desafio é estimular as pessoas a fazer o teste para flagrar o HIV,” afirma Kallás. “Só assim esses indivíduos poderão se tratar antes de adoecer e tomar cuidado para não transmitir o vírus para terceiros.” Eis o segundo grande desafio: reduzir a contaminação. Com o número de soropositivos nas alturas, é sabido que não dá pra contar apenas com a camisinha. Nesse sentido, foi um grande alívio o anúncio, no ano passado, da descoberta de que a circuncisão reduzia em 60% a infecção pelo vírus durante o ato sexual. Isso acontece pelo fato de a glande ficar mais espessa após a retirada do prepúcio. Assim, fica menos sujeita a lesões.
QUANTOS JÁ MORRERAM DE AIDS NO BRASIL
A distribuição do coquetel antiaids pelo sistema público de saúde brasileiro a partir de 1996 reduz em 30% o número de mortes

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