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Medicina MATÉRIA

...e o homem foi ao médico

A ala masculina vence a resistência em procurar o consultório para checar se a saúde está em ordem. Mitos e receios ainda precisam ser derrubados, mas não sobram dúvidas de que a mentalidade do “sexo forte” mudou — para melhor. Ele agora reconhece sua vulnerabilidade e encontra do outro lado do estetoscópio um aliado para viver bem

por DIOGO SPONCHIATO
design EDER R. e GLENDA C.
ilustração ÉBER E.

Há quase três décadas, macho que era macho mantinha distância de médicos. Hoje, por uma feliz ironia do destino, muitos marmanjos já descobriram que só é possível preservar o vigor e a tão estimada vida sexual com a ajuda de um profissional de saúde. Os homens sabem que podem (e querem) ter uma vida longa e ativa — em todos os sentidos. E percebem que, para isso, precisam prevenir doenças e conferir com certa freqüência se tudo está mesmo... em cima. Para reforçar essa tendência e, mais do que isso, botar na cabeça dos pacientes masculinos por que é importante visitar o urologista e o cardiologista, o Ministério da Saúde oficializará, até o fim deste ano, a Política Nacional de Saúde do Homem.

“O programa visa alertar a população masculina para os problemas cardiovasculares, o diabete e o câncer de próstata, além de criar centros de referência de acordo com as necessidades de cada região”, explica Adson França, diretor do Departamento de Ações Estratégicas do ministério. “O homem tem de entender de uma vez por todas que procurar o médico por prevenção não é coisa só de mulher”, afirma. Se os males do coração já o assustavam, os últimos anos mostram também a maior preocupação com o câncer de próstata. “Ele está mais atento porque passou a aceitar sua vulnerabilidade”, constata o médico Aguinaldo Nardi, da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU).

O tumor de próstata, um tema que antigamente pouco freqüentava as rodas de conversa dos machões, não vem despertando interesse por que eles viraram hipocondríacos. O alarde faz sentido. “São 50 mil novos casos anualmente”, justifica Nardi.

Com 45 anos de experiência, o urologista José Cury, do Hospital das Clínicas de São Paulo, acredita que três fatores contribuíram para que os homens começassem a encarar problemas de saúde sem tanto medo. “O primeiro fator foi o surgimento do exame de sangue que dosa o PSA, o marcador de doenças na próstata”, aponta. Em seguida, a pressão das próprias companheiras. “Por fim, muitos conhecem amigos e vizinhos com esse câncer.” Pois é, ele não parece mais um problema distante no mundo atual.

É evidente que hordas de machos ainda fogem de outro método primordial para detectar esse tipo de câncer, o toque retal. Pura ignorância. “O exame dura em média sete segundos e é indolor”, garante Nardi. “Com o toque e o PSA, há 80% de chances de diagnosticar o tumor de próstata na fase em que ele ainda pode ser curado”, calcula Cury. O ex-presidente da SBU mineira, Luiz Otávio Torres, emenda: “É uma doença que geralmente não apresenta sintomas. Se não podemos evitá-la, ao menos dá para vencê-la na fase inicial” .

Se expandirmos o assunto para além da próstata, notaremos que, mais esperta, uma boa parcela do time do sexo forte deixou de recorrer ao pessoal que porta um estetoscópio apenas quando surge o sofrimento. Check-up é um termo que entrou de vez no seu vocabulário. Mas, independentemente do problema em questão, o homem ainda costuma falhar num quesito: fidelidade. É... “Ele não é fiel ao tratamento”, observa a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Projeto Sexualidade (ProSex) do HC paulistano. “O homem tende a abandonar a terapia assim que os sintomas vão embora.” E, mal resolvidos, problemas como a hipertensão viram uma incômoda e perigosa pedra no sapato.

Apesar de muitos pacientes ainda driblarem o consultório em termos de prevenção, uma ameaça não costuma abrir margem a hesitações: a disfunção erétil. “O homem se preocupa muito quando há um mínimo de perda no desempenho sexual”, afirma Carmita Abdo. A prova disso está nos números do ProSex. “Há 15 anos, a proporção de procura por nosso serviço era de sete homens para uma mulher. Hoje é de dois para uma”, conta. Ou seja, quando o desempenho entre lençóis está sob risco, não há demora em buscar uma solução.

O sexo como motivo para ir ao consultório é algo ruim? Nada disso. Os médicos, aliás, vêem na dificuldade para obter e manter a ereção uma brecha para flagrar problemas sérios, como as placas de gordura nos vasos e o diabete. Não por acaso, a Sociedade Brasileira de Urologia lançou neste ano uma campanha que empresta à disfunção erétil a condição de marcador de risco de doenças cardiovasculares. “As mesmas placas que entopem as artérias do coração também afetam as do pênis”, afirma Aguinaldo Nardi, coordenador da iniciativa. “Como os vasos penianos são mais finos, é provável que o distúrbio de ereção ocorra antes de um infarto”, alerta ainda o cardiologista Marcelo Bertolami, do Instituto Dante Pazzanese, em São Paulo. Dessa forma, quem teve alguma experiência não tão boa na cama também deveria fazer exames, como o eletrocardiograma.

Muita gente, porém, desperdiça a oportunidade de, com base numa consulta, atacar a origem das falhas sexuais — especialmente depois da popularização dos remédios para a disfunção erétil. “A questão é que o homem vai direto à farmácia para se tratar”, nota o urologista Sidney Glina, do Hospital Ipiranga, na capital paulista. Um erro que pode mascarar algo mais grave. “A dificuldade de ereção costuma ser o sintoma de outros males, como até mesmo depressão. E as causas precisam ser investigadas e bem cuidadas”, avisa Carmita. Quando o corpo e a mente estão bem, o desempenho sexual responde à altura. Assim, o homem que pretende ter uma vida longa e sexualmente saudável deve fazer do consultório uma parada obrigatória. Ora, macho que é macho também sela sua amizade com o cara do jaleco branco.

 
 
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