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Quando SAÚDE! publicava suas primeiras edições, por incrível que pareça o cigarro ainda estava quase exclusivamente associado a termos como sucesso, prazer, satisfação, liberdade e atitude. Já se sabia que a nicotina fazia mal, é verdade. “Mas acreditava-se que parar de fumar era uma questão de força de vontade”, lembra a cardiologista Jaqueline Scholz Issa, coordenadora do ambulatório de tratamento do tabagismo do Instituto do Coração, de São Paulo. Ou seja, correr o risco era o preço a pagar para obter aquele pacote de valores positivos — e quem achasse ele alto demais poderia abandonar as tragadas a qualquer momento. No finalzinho dos anos 1980, descobriu-se que não era bem assim: fumar causaria uma forte dependência química. “Só aí a síndrome de abstinência à nicotina foi reconhecida oficialmente como doença”, conta a médica. A guerra ao tabagismo, então, virou uma questão de saúde pública.
batalha em 1986, quando uma lei federal criou o Dia Nacional de Combate ao Fumo, 29 de agosto. No ano seguinte, os países membros da Organização Mundial da Saúde, a OMS, estabeleceram 31 de maio como o Dia Mundial Sem Tabaco. Havia, porém, um detalhe: faltavam armas para vencer a luta.
A nicotina, em si, é uma das substâncias menos tóxicas do tabaco. Mas, como é a grande causadora da dependência, merece todas as acusações: afinal, é ela que mantém o fumante preso aos outros mais de 4,7 mil componentes maléficos. Cerca de 50 deles provocam câncer. Não para menos, neste quarto de década, a OMS já registrou mais de 70 mil estudos relacionando o cigarro a tumores de pulmão, boca, laringe, bexiga e estômago.
Para livrar o organismo de tanta ameaça, os primeiros medicamentos surgiram nos anos 1990. Todos se baseavam no princípio de jogar uma pitada de nicotina na corrente sanguínea do ex-fumante para aliviar a agonia de ficar sem a substância até o organismo se acostumar a viver longe da fumaceira. Até hoje são recursos que ajudam um bocado — na forma de adesivos e gomas de mascar.
adesivos e gomas de mascar. “Só não são tão eficazes sozinhos porque há outros sintomas, como a depressão, que aparece duas vezes mais na população fumante”, conta o médico João Paulo Lotufo, líder do grupo de tratamento antitabagismo do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo. “Evitar as oscilações bruscas de humor e os picos de ansiedade é sempre de grande ajuda”, diz ele. Por volta do ano 2000, os médicos notaram que um antidepressivo daria uma mão nesse sentido — a bupropiona
Para os especialistas, porém, o grande empurrão em matéria de tratamento veio com a vareniclina, droga lançada no ano passado. “Ela toma o lugar que a nicotina ocuparia nos receptores cerebrais, o que diminui a abstinência e a vontade de fumar”, descreve Jaqueline Issa. “Quando lançamos mão do medicamento, os índices de sucesso aumentam em cerca de 10%”, revela. No entanto, todos reconhecem que a solução não está só na farmácia. Muitas vezes o paciente precisa de ajuda psicológica. E existe o ambiente em que vive o candidato a ex-fumante — ele também deve ser favorável. Por isso, campanhas de informação e encorajamento a largar o vício são peças fundamentais.
O combate ao tabagismo, aliás, é tema do primeiro tratado internacional de saúde pública. Criado em 2003 e batizado de Convenção-Quadro para Controle do Tabaco, trata-se de um documento em que os países signatários se comprometem não só a ajudar os fumantes a vencer a nicotina como também a proteger as gerações futuras. “Por ultrapassar fronteiras, num mundo globalizado, ele é uma das nossas principais ferramentas de luta”, define Vera da Costa e Silva, consultora da OMS para assuntos do tabaco no Brasil.
OMS para assuntos do tabaco no Brasil. Segundo essa organização, se não houver um esforço conjunto, o número de fumantes subirá para 1,7 bilhão em 20 anos. As mortes provocadas pelo cigarro dobrarão, sendo que sete em cada dez óbitos acontecerão em países em desenvolvimento, como o Brasil, que concentram 80% dos fumantes do planeta. “Precisamos agir depressa”, defende Vera.
As campanhas brasileiras já alcançaram bons resultados. Ora, em 1989, 34,2% dos brasileiros adultos davam suas tragadas. Em 1997, apenas 16,4% deles fumavam. “Só que isso ainda é pouco”, opina Tânia Cavalcante, líder da Divisão de Controle do Tabagismo do Instituto Nacional do Câncer, o Inca. “Precisamos de uma lei federal proibindo definitivamente o fumo em recintos coletivos”, exemplifica. E faz questão de justificar: não há níveis seguros de exposição à fumaça . “Mesmo o contato com o cigarro por curtos períodos prejudica os não fumantes”, avisa. “Está mais do que na hora de os fumantes passivos entrarem pra valer nessa guerra”, diz Tânia.

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