As acusações não desgrudam do Teflon®. No passado falou-se que a frigideira contaminava os alimentos com partículas que se desprendiam das camadas do antiaderente. Agora o material, cujo nome científico é politetrafluoretileno (PTFE), está na mira da EPA, Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos. Um artigo publicado em julho pela respeitada revista Nature culpa a DuPont, fabricante do Teflon®, por não reportar às autoridades os possíveis riscos do material (veja a defesa da empresa na página seguinte).
Os ambientalistas estão especialmente preocupados com o ácido perfluoroctanóico (PFOA), usado no processo de fabricação do Teflon®. A substância não é produzida pela natureza, mas tem sido encontrada no meio ambiente e na corrente sangüínea da população.
Um relatório divulgado em junho passado pela EPA classificou o componente como um possível carcinógeno, isto é, um provável desencadeador de tumores. A medida baseou-se em estudos com cobaias que relacionaram o PFOA a problemas de desenvolvimento e surgimento de câncer de fígado. Será que o mesmo poderia acontecer com o homem? A própria EPA assume que precisa de mais estudos para elucidar a questão. Em seu site,
www.epa.gov, a agência declara que ainda não sabe exatamente como as pessoas são expostas ao PFOA e afirma que continuará investigando se há alguma ação tóxica no corpo humano.
Não bastaria banir as tais frigideiras escorregadias para resolver o impasse. Uma infinidade de produtos — tecidos à prova d'água, produtos de limpeza, componentes eletrônicos, carros e até naves espaciais — leva Teflon® na fórmula. Fala-se muito da frigideira porque ela é, de longe, a mais temida. A explicação é simples: o utensílio vai ao fogo. "O PTFE se decompõe a partir de 342 graus Celsius", avisa a nutricionista Késia Quintaes, autora de uma tese de doutorado sobre panelas pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Nessa temperatura o material perde sua característica antiaderente e libera uma fumaça indesejável. "O PTFE parece se decompor em uma variedade de produtos, inclusive em PFOA. Não sei se a comida que entrou em contato com o material retém uma quantidade moderada de PFOA. Pessoalmente, duvido que esses resíduos sejam preocupantes, mas novas pesquisas devem esclarecer esse ponto", disse à SAÚDE! Scott Mabury, professor de química ambiental da Universidade de Toronto, no Canadá.
Infelizmente não é só o PFOA que preocupa. "O superaquecimento dessas panelas gera radicais livres reativos que podem produzir muitas substâncias nocivas, contaminando os alimentos e o ar", enfatiza João Pedro Simon Farah, professor do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP). "Os gases oriundos da degradação do PTFE são altamente tóxicos", confirma a veterinária Silvia Neri Godoy, do Ministério do Meio Ambiente. "Em aves, causam o rompimento de pequenos vasos sangüíneos, hemorragia pulmonar e morte." Silvia pesquisou o tema com a veterinária Marta Brito, da USP, que acrescenta: "Há trabalhos que relatam dificuldade respiratória em seres humanos após o uso contínuo de panelas de Teflon®." E - detalhe - se a superfície antiaderente estiver com um arranhãozinho, isso tudo aconteceria mais facilmente.
Vale a pena continuar usando as panelas de Teflon®? "Considero desfavorável a relação entre a necessidade desses utensílios e os riscos potenciais", responde o químico João Pedro Simon Farah, da USP. "Essas panelas podem ser substituídas com vantagens por outras, como as cerâmicas", opina. Já o químico Marcos Teixeira, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), de São Vicente, no litoral paulista, acha que não há motivo para preocupação: "Não existem provas de que essas panelas de fato contaminem os alimentos". Se você não pretende jogar fora as frigideiras antiaderentes, vale tomar alguns cuidados (confira no quadro abaixo).
Dicas práticas
A nutricionista Késia Quintaes ensina a minimizar eventuais riscos com Teflon®
• Nunca coloque a panela vazia no fogo, porque assim ela esquenta demais
• Evite fazer frituras, especialmente com óleos reaproveitados
• Não utilize formas desse material. No forno, a temperatura pode ultrapassar os 250º
O que diz a DuPont
Nossa reportagem pediu um pronunciamento da multinacional. Leia os trechos mais importantes do comunicado enviado à redação
"Em 6 de julho de 2005 a DuPont compartilhou com a EPA novos dados sobre a saúde humana e o PFOA. (...) A investigação inclui parte de um estudo de duas fases realizado com funcionários, executado pela DuPont, com relação à exposição ao PFOA de mais de mil trabalhadores da planta da DuPont em Washington, localizada próximo a Parkersburg, Virgínia (EUA). Os resultados da primeira fase do estudo indicam que não há nenhuma relação entre a exposição ao PFOA e muitos dos parâmetros de saúde que estão sendo avaliados. (...) A empresa também ofereceu novas informações sobre a baixa atividade biológica do PFOA em níveis moleculares. Esse estudo é parecido com o utilizado pelos laboratórios farmacêuticos no estudo da ação de drogas no organismo. 'Com base na avaliação dos riscos à saúde, os estudos toxicológicos e a investigação de biologia molecular, a DuPont considera que o peso das evidências indica que a exposição ao PFOA não representa nenhum risco à população', afirma Robert Richard, diretor de Toxicologia da DuPont. Até o momento, não foi identificado nenhum efeito sobre a saúde humana que seja causado pela exposição ao PFOA, nem sequer em trabalhadores que estiveram sob índices muito maiores de exposição que a população em geral. (...) Os consumidores que adquirirem utensílios de cozinha e roupas com Teflon® não estão sob nenhum tipo de risco."
SETEMBRO 2005
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